A fé é plural

Deus está em todas as coisas. Essa afirmação, que por muitos pode ser tomada como panteísta, é defendida por Tomás de Aquino em sua monumental Suma Teológica logo entre suas primeiras questões. É através das coisas – suas obras – , inclusive, que podemos conhecer a Deus, já que para nós, em si, sua existência não é evidente. Do múltiplo, podemos chegar ao uno.

A pluralidade é um dom da criação. Não um defeito, uma degeneração. Mas uma riqueza que nos ajuda a compreender Deus, que é unidade, mas também diversidade. A concepção cristã de Deus, aliás, traz em si um importante ressalte à diversidade que existe no próprio Criador. A noção de Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo) expressa um Deus que não é monolítico, mas que manifesta sua unidade a partir de um paradigma relacional, familiar.

Um mundo uniforme, portanto, estaria muito mais distante do Criador do que um mundo de plurais possibilidades, culturas, manifestações. Uma humanidade homogênea em pensamento e espiritualidade não poderia ser chamada “à imagem e semelhança de Deus”. A pluralidade dá testemunho do divino, tanto quanto a unidade, entendida como relação.

Desta realidade teológica, decorre um imperativo pastoral: dialogar com as diferenças, incluí-las e legitimá-las faz parte do caminho do discipulado cristão. Este diálogo, presente desde as primeiras comunidades eclesiais e muito claramente expresso no apostolado de Paulo junto aos pagãos, é, em si, o que chamamos de unidade.

No amor ágape manifesto pelo Pai através de Jesus Cristo, ser uno significa antes uma meta, uma dinâmica de “vir a ser”, do que um dado determinado da realidade eclesial. “Que sejam um” é a oração e o desejo do Bom Pastor para “estes” e “aqueles”, que fazem e que virão a fazer parte do seu redil (Jo 17, 20-21). Este é o caminho de sinodalidade que a Igreja é chamada a percorrer continuamente, não só para testemunhar sua unidade interna, mas sobretudo a encontrar, nutrir e sustentar. O caminhar conjunto dos discípulos missionários é, portanto, numa lógica trinitária, acolhida familiar das diferenças, abertura à diversidade, escuta das vozes que clamam das plurais periferias, tantas vezes silenciadas pelo núcleo duro do poder e da cultura hegemônica.

Nas relações amorosas se diz que os opostos se atraem; talvez aqui, a ideia de oposição seja uma radicalização questionável da atração à diferença. Não se pode negar, porém, que o verdadeiro amor não se manifesta sobre o que lhe é absolutamente igual, mas é parte constitutiva dele justamente o enlace entre as diferenças. A unidade, portanto, se dá no amor, porque é realidade relacional e não solitária.

Deus é amor, porque é plural. Porque aquele que não sabe se reconhecer no múltiplo, não aprende a amar sequer a si mesmo. Torna-se célula avulsa de um corpo orgânico de multiformes relações e interdependências; fadada, portanto, à morte, pois fora da unidade diversa do corpo não há vida.

Crer significa reconhecer, na multiplicidade das coisas, a presença de um Deus Amor. A espiritualidade fecunda é aquela que se reconhece parte, e não todo. E porque aberta à diversidade da vida, aprende a reconhecer o amor, que é força capaz de unir o que está disperso e que faz do que é plural não uma divisão, mas uma unidade viva. 

Matheus Cedric
É professor de Filosofia e Ensino Religioso e autor de material didático para Educação Básica nas mesmas áreas. É cofundador da Oficina de Nazaré. Atualmente estuda Teologia na PUC Minas, onde trabalha como membro da equipe executiva do Observatório da Evangelização.

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